
A normatividade é algo construído socialmente, ao longo da história, dentro de um determinado contexto. São ações e práticas que se tornam “regras” em determinadas sociedades. A heterossexualidade faz parte dessa normatividade. Todas as práticas não-heterossexuais são marginalizadas e consideradas anormais.
Na Grécia antiga a homossexualidade era completamente normal. Acreditava-se que os homens mais velhos deveriam ter relações sexuais com jovens para lhes transmitir suas qualidades através do sêmen. Mas com a ascensão do Cristianismo essas práticas foram consideradas pecaminosas devido ao fato de não haver procriação em uma relação entre pessoas do mesmo sexo. A Bíblia afirma que um homem se deitar com outro homem é uma abominação, mas um homem se deitar com uma mulher e não a fertilizar também é considerado abominação, pelo fato do sêmen estar sendo desperdiçado. Contudo, devemos estar cientes de que a Bíblia possui diversas interpretações, e o contexto da época era de uma sociedade que queria crescer, por isso a necessidade da procriação. Vale lembrar que nos dias atuais existe países em que se tornou proibido ter mais de um filho.
Devido ao contexto dessa época a heterossexualidade passou a fazer parte da normatividade, e esse quadro foi ainda mais reafirmado com a ascensão da burguesia, onde no topo da hierarquia social se encontravam homens brancos heterossexuais. Nesse contexto, o preconceito serviu como instrumento para a manutenção das hierarquias sociais, pois assim prevaleceria a hegemonia burguesa. Ou seja, o preconceito inferiorizou mulheres, negros e homossexuais, mantendo a classe burguesa dominante na sociedade.
Não é natural falar em heterossexualidade ou homossexualidade, e sim em sexualidade. Somos seres sexuados, e essa sexualidade é plural. Assim como existem pessoas que gostam de determinados alimentos e não gostam de outros, existem pessoas que sentem atração pelo sexo oposto e pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo. A homossexualidade já foi considerada doença, mas nenhum estudo conseguiu provar tal afirmação, e hoje em dia ela sai do campo das patologias e anomalias e passa a ser considerada como uma expressão da sexualidade.
Devido ao preconceito existente, muitas pessoas preferem se manter “dentro do armário”, o que nos leva à conclusão de que o número de homossexuais existente é maior do que se afirmam as pesquisas. Esses homossexuais reprimidos têm medo de se assumir para a sociedade devido à reprovação que eles poderão ter, além de se considerarem anormais. Devido a esse fato, muitos jovens homossexuais se suicidam nos dias de hoje. Pesquisas apontam que jovens gays são de duas a três vezes mais propensos a tentar o suicídio quando comparados a jovens heterossexuais.
As relações entre pessoas do mesmo sexo eram vistas como promíscuas, pois o sexo era relacionado à procriação. Mas com a revolução sexual ocorrida no século XX, o sexo deixa de ser vinculado apenas à procriação e passa a ser vinculado ao prazer. É nesse momento que surge a pílula anticoncepcional e aumentam os debates sobre diversidade sexual e feminismo.
A homossexualidade é um tema que envolve tanto o âmbito privado quanto o público. Suas práticas sexuais envolvem sua vida privada. Entretanto, a inferiorização dos homossexuais, as lutas destes por direitos e toda a polêmica causada em torno da sexualidade diz respeito à vida pública.
Existe uma relação de subordinação, uma vez que homossexuais são inferiorizados. Mas o preconceito impede que relações de subordinação se transformem em política e sejam vistas como injustiça. Portanto a homofobia não possui visibilidade pública na condição de injustiça, uma vez que a subordinação social dos homossexuais foi naturalizada. O que os movimentos sociais LGBTs fazem é tentar trazer essas questões para o âmbito público para que a homofobia também seja vista como injustiça.
Por serem marginalizados na sociedade, surgem guetos homossexuais para a socialização e criação de identidade. Nesses guetos existe uma democracia sexual inexistente na maioria dos espaços públicos.
Não podemos afirmar que vivemos em um país plenamente democrático uma vez que a democracia sexual e diversas outras formas de democracia não existem. Só poderemos mudar de fato a sociedade quando buscarmos as raízes históricas do nosso preconceito e rompermos com aquilo que nos é imposto todos os dias.