segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Travestilidade e mídia - Segregação: a gente vê por aqui!

Hoje acordei cedo e resolvi assistir TV enquanto tomava café da manhã; estava passando "Bom Dia Brasil" na Globo. Uma reportagem, então, me chamou muito a atenção: abordava o tema da travestilidade/identidade de gênero, um dia após o dia da visibilidade trans, celebrada 29 de janeiro.

Na reportagem o cartunista Laerte, que se auto-identifica como uma pessoa transgênera, ou seja, sua expressão de gênero não corresponde àquela socialmente estabelecida e, por isso, age e se veste como mulher, afirma ter sido coagido ao usar o banheiro feminino de um restaurante, tendo seus direitos suprimidos. Ao falar sobre o assunto, ele compara a luta dos travestis no Brasil à luta dos negros, que durante anos tiveram seus direitos de ir e vir cerceados. Durante sua fala, Laerte, que possui uma identidade de gênero feminina e se veste de mulher, afirmou ser bissexual e ter uma namorada. Lembrei logo de algumas pessoas que me chamaram de louca e exagerada quando eu disse que uma travesti pode ser lésbica e, portanto, namorar uma mulher... Que sexo, identidade de gênero e orientação sexual são coisas distintas.

A reportagem trouxe a tona questões interessantes e pouco discutidas e, até o momento, vinha se dando de maneira impessoal, o que me surpreendeu muito por se tratar da rede Globo de televisão.

Entretanto, ao final da matéria, para acabar com todo o meu deleite, o apresentador Chico Pinheiro diz: "É, daqui a pouco vai ter que fazer três banheiros mesmo, não vai ter outro jeito essa história não". Essa frase me soou como "é, o jeito vai ser criar vagões exclusivos para os negros para não termos problema"... De súbito me veio à mente o Apartheid, quando os negros sofreram segregação na área da saúde, educação e demais serviços públicos. Dessa vez querem segregar aquelas pessoas cuja expressão de gênero não condiz com a que a sociedade estabelece. E a grande mídia burguesa responsável pela comunicação de massa, ao final de uma interessantíssima reportagem, exprime sua "opinião" conservadora que, no entanto, representa um retrocesso à luta LGBT.

Questões como estas devem ser amplamente debatidas na sociedade não apenas pela ótica da mídia. Ela, muitas vezes, distorce fatos e realiza um debate raso sobre temas de grande importância, e aquilo que é dito por ela influencia na opinião de milhares de pessoas.


Link do vídeo:

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2012/01/cartunista-que-se-veste-de-mulher-quer-usar-o-banheiro-feminino.html

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A propaganda e o comércio de brinquedos na construção do feminino e do masculino



Os meios de comunicação tentam capturar a subjetividade das pessoas, muitas vezes associando o produto comercializado a um perfil psicológico.

No que tange às questões de gênero, podemos notar como a mídia e o comércio sustentam e reafirmam as diferenças de gênero, ou seja, as diferenças entre o feminino e o masculino. As propagandas de brinquedos, bem como as próprias lojas, fazem uma distinção daquilo que é destinado para meninas e para meninos. Carrinhos, armas e bolas, por exemplo, são considerados brinquedos masculinos. Já as bonecas, casinhas e panelinhas são brinquedos femininos.

Tais brinquedos influenciam na construção social da masculinidade e feminilidade. Os homens são criados para serem figuras do espaço público, que futuramente terão carros e trabalharão fora. Também são ríspidos, fortes e viris. Já as mulheres são criadas para serem figuras do espaço privado, que cuidarão da casa e dos filhos. São consideradas frágeis, sensíveis e meigas. As panelinhas de plástico aparecem para reforçar o discurso de que “lugar de mulher é na cozinha”, enquanto as bonecas são utilizadas para construir o mito do instinto materno.

Se meninas brincam com carrinhos ou arminhas de brinquedo, são Maria homem. Se meninos brincam de casinha ou de boneca, são veadinhos. Isso porque muitas pessoas não sabem e não procuram saber a diferença entre sexo, identidade de gênero e orientação sexual. O macho (sexo/características biológicas) deve ser masculinizado (gênero/características atribuídas socialmente) e hétero (orientação sexual), enquanto a fêmea deve ser feminina e hétero. Quando uma pessoa foge desses padrões estabelecidos, a moral entra em cena, os papéis se misturam e a fogueira é acessa para queimar todos os “anormais pecaminosos”.

quinta-feira, 10 de março de 2011

De novo a história do altruísmo...

Assistindo Friends uns dias atrás, me deparei com a mesma discussão que aconteceu em torno do meu post antigo, “Altruísmo existe?”. Nada melhor para ilustrar minha opinião como o episódio “Aquele em que Phoebe odeia a PBS”, 4º episódio da 5ª temporada. Nele, Joey afirma que não existem boas ações altruístas, enquanto Phoebe tenta, a todo o custo, encontrar uma ação verdadeiramente altruísta. Daria um ótimo vídeo-debate, engraçado e descontraído!




Trecho no youtube
http://www.youtube.com/watch?v=x7Dz5l-T4YU

Assista no megavideo
http://www.megavideo.com/?v=UYAQ3GK5

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Uma introdução à Diversidade Sexual


A normatividade é algo construído socialmente, ao longo da história, dentro de um determinado contexto. São ações e práticas que se tornam “regras” em determinadas sociedades. A heterossexualidade faz parte dessa normatividade. Todas as práticas não-heterossexuais são marginalizadas e consideradas anormais.

Na Grécia antiga a homossexualidade era completamente normal. Acreditava-se que os homens mais velhos deveriam ter relações sexuais com jovens para lhes transmitir suas qualidades através do sêmen. Mas com a ascensão do Cristianismo essas práticas foram consideradas pecaminosas devido ao fato de não haver procriação em uma relação entre pessoas do mesmo sexo. A Bíblia afirma que um homem se deitar com outro homem é uma abominação, mas um homem se deitar com uma mulher e não a fertilizar também é considerado abominação, pelo fato do sêmen estar sendo desperdiçado. Contudo, devemos estar cientes de que a Bíblia possui diversas interpretações, e o contexto da época era de uma sociedade que queria crescer, por isso a necessidade da procriação. Vale lembrar que nos dias atuais existe países em que se tornou proibido ter mais de um filho.

Devido ao contexto dessa época a heterossexualidade passou a fazer parte da normatividade, e esse quadro foi ainda mais reafirmado com a ascensão da burguesia, onde no topo da hierarquia social se encontravam homens brancos heterossexuais. Nesse contexto, o preconceito serviu como instrumento para a manutenção das hierarquias sociais, pois assim prevaleceria a hegemonia burguesa. Ou seja, o preconceito inferiorizou mulheres, negros e homossexuais, mantendo a classe burguesa dominante na sociedade.

Não é natural falar em heterossexualidade ou homossexualidade, e sim em sexualidade. Somos seres sexuados, e essa sexualidade é plural. Assim como existem pessoas que gostam de determinados alimentos e não gostam de outros, existem pessoas que sentem atração pelo sexo oposto e pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo. A homossexualidade já foi considerada doença, mas nenhum estudo conseguiu provar tal afirmação, e hoje em dia ela sai do campo das patologias e anomalias e passa a ser considerada como uma expressão da sexualidade.

Devido ao preconceito existente, muitas pessoas preferem se manter “dentro do armário”, o que nos leva à conclusão de que o número de homossexuais existente é maior do que se afirmam as pesquisas. Esses homossexuais reprimidos têm medo de se assumir para a sociedade devido à reprovação que eles poderão ter, além de se considerarem anormais. Devido a esse fato, muitos jovens homossexuais se suicidam nos dias de hoje. Pesquisas apontam que jovens gays são de duas a três vezes mais propensos a tentar o suicídio quando comparados a jovens heterossexuais.

As relações entre pessoas do mesmo sexo eram vistas como promíscuas, pois o sexo era relacionado à procriação. Mas com a revolução sexual ocorrida no século XX, o sexo deixa de ser vinculado apenas à procriação e passa a ser vinculado ao prazer. É nesse momento que surge a pílula anticoncepcional e aumentam os debates sobre diversidade sexual e feminismo.

A homossexualidade é um tema que envolve tanto o âmbito privado quanto o público. Suas práticas sexuais envolvem sua vida privada. Entretanto, a inferiorização dos homossexuais, as lutas destes por direitos e toda a polêmica causada em torno da sexualidade diz respeito à vida pública.

Existe uma relação de subordinação, uma vez que homossexuais são inferiorizados. Mas o preconceito impede que relações de subordinação se transformem em política e sejam vistas como injustiça. Portanto a homofobia não possui visibilidade pública na condição de injustiça, uma vez que a subordinação social dos homossexuais foi naturalizada. O que os movimentos sociais LGBTs fazem é tentar trazer essas questões para o âmbito público para que a homofobia também seja vista como injustiça.

Por serem marginalizados na sociedade, surgem guetos homossexuais para a socialização e criação de identidade. Nesses guetos existe uma democracia sexual inexistente na maioria dos espaços públicos.

Não podemos afirmar que vivemos em um país plenamente democrático uma vez que a democracia sexual e diversas outras formas de democracia não existem. Só poderemos mudar de fato a sociedade quando buscarmos as raízes históricas do nosso preconceito e rompermos com aquilo que nos é imposto todos os dias.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Coisas que aprendi em 2010...

Descobri que, se uma pessoa é triste, é triste em qualquer lugar.

Descobri que surpreender pessoas que não dão nada por você é extremamente satisfatório.

Descobri que convivência é uma coisa complicada.

Descobri que planos pensados a longo prazo são possíveis, por mais que as pessoas debochem e desacreditem deles.

Descobri que esses planos podem dar certo desde que não necessitem demais dos outros, mas sim de sua força de vontade, e desde que não sofram grave intervenção do dito “destino”.

Descobri que não adianta dar o mundo a alguém que não está interessado.

Descobri que relacionamentos são instáveis, pois dependem de duas mentes convergentes em determinados sentimentos e situações.

Descobri que a competitividade às vezes é maior do que a amizade.

Descobri que sou individualista ao ponto de odiar a competitividade (a não ser que seja entre eu e eu mesma).

Descobri que esse individualismo desagrada muitas pessoas. Mas também descobri que não é preciso mudar, pois amigos de verdade te aceitam como você é.

Descobri que fatos sociais são como coisas. “São maneiras de agir, pensar e sentir exteriores ao indivíduo e dotadas de um poder coercitivo”.

Que para Maquiavel, “os fins justificam os meios”.

E descobri que final de período é, definitivamente, um purgatório coletivo.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Altruísmo existe?

Depois de várias sessões de filosofia de boteco chegamos à conclusão de que não, altruísmo não existe. Compartilho da idéia de nosso sábio Simmel de que toda ação humana é egoísta. Isso significa que o ato altruísta em si pode até existir, mas a motivação por trás de tal ato é egoísta. Auguste Comte estava muito equivocado (assim como na maioria de suas teorias) quando afirmou que os seres humanos têm a capacidade de viver para os outros.

Quando ajudamos alguém, ajudamos por que isso nos faz bem. É um benefício próprio, antes de ser um benefício a terceiros.

Passei dias pensando em alguma ação verdadeiramente altruísta. Pensei na situação em que não queremos fazer algo, e admitimos que não queremos, porém, fazemos por que devemos fazer, pois não fazer seria errado. Isso também é egoísta, pois não fazer te deixaria com a consciência pesada, e ninguém vive bem com esse tipo de peso.

Quando penso nisso, me vêm à cabeça que somos todos podres e que o mundo não tem jeito. Mas a questão é que o mundo é e sempre foi assim, e quase não percebemos. Estamos tão ocupados nos vangloriando como “pessoas de bem” que nos esquecemos de perceber que todas as nossas ações são em favor de nós mesmos. Mas nem sempre isso é ruim. Se o nosso egoísmo pode ser usado a favor do bem comum, que assim seja feito.

E assim segue a humanidade, com seu jeito complexo e peculiar, cheia de armadilhas e segredos.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Reflexões a cerca de um individualista apaixonado

Fico pensando em como pessoas individualistas podem chegar ser tão dependentes de uma paixão. Geralmente, essas pessoas vivem imersas em seu mundo, não tem a necessidade de outras pessoas para exercer qualquer tipo de tarefas e vivem muito bem assim. Não gostam de andar em bando, não gostam de trabalho em grupo, gostam de caminhar sozinhos com seus devaneios.

Os individualistas se voltam tanto para o seu próprio mundo que a inserção de qualquer corpo estranho no mesmo ou a proximidade com qualquer mundo diferente os assusta, fazendo com que se crie uma barreira de isolamento, modo de auto-preservação. Porém, quando um individualista se apaixona, ele deseja a presença desse corpo estranho, e esse passa a fazer parte do mundo dele. Não são mais dois mundos distintos, mas algo que passa a integrar o mundo do sujeito individualista. E como o bom individualista é obcecado por seu próprio mundo, torna-se obcecado pela sua paixão. A perda dessa paixão é como a perda de uma peça fundamental em seu quebra-cabeça, ou a perda de um órgão essencial para o funcionamento de seu organismo.

Ah individualista... Te custou tanto descobrir que você não pode montar seu quebra-cabeça com uma peça que não lhe pertence. A construção do seu mundo só pode ser feitas com elementos seus. Os elementos alheios não passam de complemento.

A maior contradição e maior burrice de um individualista é ser obcecado por uma paixão.